• Centro de Estudos José de Barros Falcão

A Pele que Habito – Filme de Almodóvar!



Realmente um filme impactante, é difícil começar um comentário devido à complexidade das interações. Um cirurgião plástico que está investigando uma forma transgênica de tornar a pele humana mais resistente ate a uma picada de mosquito que impediria, por exemplo, contrair a malaria. Uma mulher aparece em quarto onde tudo é amarelo inclusive a roupa que cobre seu corpo como um colan. Ela parece estar isolada, é controlada por câmeras por uma senhora idosa. Logo surge a visita do cirurgião a ela de forma rápida como se o contato fosse com uma cobaia. No primeiro movimento de impacto do filme surge uma visita surpreendente para a velha senhora. Um filho que não via a 10 anos, vestindo com uma fantasia de carnaval que insiste em entra na casa porque está fugindo da policia por ter sido identificado num roubo. Ao entra na casa logo vê as câmeras que controlam a bela mulher. Durante o tempo em que se alimenta acompanhado pela mãe conta que aquela mulher nas telas de televisão é a mulher do cirurgião que também é filho da mãe porque neste momento ela relata que o dono da casa também é filho dela com outro homem e que, portanto, são irmãos. Fica intrigado e diz conhecê-la, sim ela a mulher do irmão que no passado teve um caso com ele e que ao estar com ela em um carro sofrem um acidente do qual ele escapa sem ferimentos e ela é carbonizada. Ele pensa então que ela não morreu, e a mãe tenta disfarçar e mandá-lo logo embora, ele insiste e fica cada vez mais excitado e aí a mãe o ameaça com um revólver. Domina a mãe e sai pela casa para encontra à mulher, depois de encontrá-la, após uma luta começa a estuprá-la. Neste momento o cirurgião chega à casa desamarra a senhora dominada pega o revólver e vai ate o quarto onde a jovem mulher está sendo estuprada, ao entrar mata com dois tiros o estuprador. Depois desse fato e depois de enterrar o morto e queimar as evidências do crime a mulher que antes se mantinha confinada ganha mais liberdade no convívio da casa com a senhora e com o cirurgião, inclusive indo para a cama com ele com intuito de uma relação sexual só não concretiza por ela estar ferida pelo estupro. Neste momento o filme volta seis anos, logo após o acidente relatado acima. O cirurgião consegue retira-la do carro ainda com um fio de vida, busca neste momento a mãe, depois de alguns anos sem vê-la, para ajudá-lo a cuidar da mulher quase totalmente queimada. Neste momento do passado surge uma menina que filha dele e que num determinado momento aparece cantando no jardim. Ao ouvir aquele canto a mãe queimada que vive totalmente reclusa vai ate a janela para ouvir aquela canção que ela tinha ensinado para filha, ao chegar perto da janela vê com horror o seu reflexo inumano distorcido pelas queimaduras, no vidro da janela, fica atônita e se atira pela janela caindo morta junto da filha que enlouquece ao ver aquele quadro horrendo. Neste momento a filha vai para uma clinica psiquiátrica e parece que psicótica, fica em tratamento internada por muito tempo. Com a melhora da filha ele o cirurgião leva a filha a um casamento e se distrai durante a festa a deixando-a sós. Depois de algum tempo volta para procurá-la e não a encontra mais, sai pelo jardim, ouve um grito e por fim a encontra desacordada. A filha foi levada por um moço para passear pelo jardim, mas logo passa a ter um comportamento estranho como tirar os sapatos e dizendo não suportar a roupa no corpo e começa a tirá-la. O jovem pensou logo em se aproveitar da situação e a leva para baixo de uma arvore e tenta uma relação sexual. Neste momento ela reage gritando e o mordendo a ponto dele se defender nocauteando-a e após recompor suas roupas, foge. Na fuga ela passa de moto pelo pai da moça. Depois desse fato ela volta para a clinica psiquiátrica e se suicida. O pai desejoso de vingança procura o jovem e após encontrá-lo o prende-o na sua clinica mantendo-o acorrentado e numa condição miserável. Depois convoca a sua equipe cirúrgica para uma cirurgia radical de troca de sexo do rapaz que se chama Vicente. Depois disso ele passa a se chamar Vera e passa por uma serie de cirurgias plásticas para se transformar totalmente numa mulher inclusive com mudança da voz. Durante esse período ele a faz fazer exercícios com vibradores de vários calibres para manter a vagina recém-construída sem colabar. Neste momento voltamos ao tempo atual onde ela já ganhou mais autonomia depois de ser estuprada pelo irmão, a ponde sair a passear com a mãe do medico para fazer compras. Durante essa primeira saída chega à casa um colega cirurgião que o acusa de ter sequestrado Felipe e feito uma cirurgia para troca de sexo sem seu consentimento. Ao ser confrontado com essa verdade o cirurgião ameaçar o colega com um revólver. Neste momento Vera chega com a mãe das compras, ouve tudo e interfere dizendo que ela é o Vicente e que quis fazer a transformação. O colega diante disso se afasta. Vera ao ver o rosto do Vicente no jornal trazido pelo colega tem uma nítida perturbação. A noite vai deitar com o cirurgião e se inicia uma tentativa de relação sexual que é rejeitada por ela porque ainda está machucada com o estupro, então ele tenta uma relação anal que também e rejeitada por ela. Ai ela diz que vai buscar um lubrificante para facilitar a relação, desce e ao buscar o lubrificante pega o revolver que esta na gaveta e volta para o quarto. Logo que entra aponta o revólver para o medico, ele invoca um pacto de amor anteriormente feito, mas ela não titubeia e o mata. A mãe ouve o tiro pega um revólver e sobe para o quarto do filho e também é morta por. Vera volta para a casa de sua mãe seis anos depois e ao encontrá-la diz que é o Vicente. Após este resumo podemos entrar na complexidade psicológica do filme. Ao sair do cinema ouvi algumas pessoas dizerem, “isto é uma loucura esse cara “o Almodóvar” é louco isso não existe”. Realmente é muito difícil entender que estamos lidando com pessoas aparentemente normais que tem uma conduta oculta, reveladora de desvios ético-morais de difícil entendimento, e só pode ser inteligiveis se levantarmos hipóteses psicológicas sofisticadas. Parece que essas pessoas na realidade vivem “loucuras privadas” que podemos então chamar de normopatias. O normopata na realidade seria uma pessoa que aparentemente tem uma conduta racional de acordo com as normas sociais, mas que numa zona interna dissociada é habitado por outro eu que qual a metáfora principal do filme é vista como um “corpo- claustro” antagônico ao meu eu adaptado socialmente. Pelo que se vê no filme, como primeira hipótese a ser pontuada é a identidade de gênero que psicologicamente parece que se completa entre um ano e meio a dois anos e meio num sentido puramente psicológico. Aqui cabe um comentário ligado a esse tipo de identidade que na realidade é uma das bases da autoestima. Se esta identidade está bem sedimentada dá uma constante sensação de pertinência pessoal imutável no tempo e no espaço. Essa característica identitária de pedra –angular parece que se for mexida provoca rachaduras indeléveis na superestrutura da personalidade. Continuando, a filha ao ser vitima de uma tentativa de estupro volta a piorar de seu delicado equilíbrio psicológico e por fim comete suicídio. Neste momento se ativa uma enorme necessidade de vingança. Aqui podemos pontuar o ódio como um dos “gigantes da alma” pois aqui vemos como ele pode gerar uma opção de vida altamente criativa embora num sentido negativo, mas que, cada vez mais temos que nos render ao que hoje chamamos de trabalho do negativo (André Green). No caso todo o trabalho vingativo que leva a mudança de sexo fazendo Vicente habitar um corpo alienígena, nos mostra que a mente ao ser inserida num corpo que se modifica rapidamente de uma forma em que a identidade de gênero masculina passa a habitar um corpo feminino. A criatividade perversa não foi capaz de embutir por fusão o ser real masculino na identidade de gênero determinada pelo novo corpo agora feminino apesar de toda a sofisticada transformação. Mas porque tudo seguiu este caminho? A morte da mulher transformada em um monstro carregando consigo a filha enlouquecida ate a morte. A busca da mãe distante afetivamente para ajudar a cuidar da mulher moribunda e depois do avatar da mulher. O estupro da nova, mesma, mulher pelo irmão. A traição da mulher com o irmão. A dificuldade de relacionamento com a mãe e também a dificuldade de relacionamento com a mulher, mesma, que indica as dificuldades com a antiga agora rediviva. Ante tanta complexidade precisamos realmente do auxilio de um mito que sincreticamente nos auxiliasse a estruturar um entendimento racional de tanta loucura ou como disse antes de tanta loucura privada. O Mito é o Mito de Édipo Rei! Porque esse Mito? Porque é através dele é que podemos ver que a trama-tragédia se urde dentro de uma triangulação básica em que os triângulos internos de cada um dos personagens interagem entre si gerando interações intersubjetivas e ao mesmo tempo intrassubjetivas ou subjetais onde o amor e o ódio se entrelaçam o tempo todo. O Édipo rei exemplifica a natureza inconsciente do complexo que recebe o nome de Édipo. O desejo de matar o pai e dormir com a mãe é tão poderoso que será alcançado de uma forma ou de outra, mesmo que o preço pago pela criança seja muito alto. Podemos ver que uma parte do êxito desse desejo está na ignorância da sua realização, que somente pode ser alcançada por meio da cegueira consciente. A pulsão epistemofílica postula a primeira pergunta consciente para o sujeito: o que o individuo deve compreender da visão da diferença sexual? A peça, contudo, também é um exemplo notável do poder de perguntas motivadas por diversas formas de ignorância. Édipo resolveu o enigma da Esfinge. Creonte havia prometido sua irmã, Jocasta, em casamento ao homem que conseguisse encontrar a resposta. A situação em si é um enigma. Como a charada poderia ser resolvida uma vez que Jocasta já era casada, e Creonte havia prometido que aquele que resolvesse a charada poderia desposa-la? A resposta deve ser que Jocasta, por obra do destino ou da sorte, deve ser uma mulher livre. Em outras palavras, Laio deve ser assassinado para que aquele que resolvesse a charada pudesse ganhar seu prêmio. O Assassinato de Laio, assim, é uma precondição para a solução da maldição. Sofocles nos mostra que se pode resolver uma questão, mas, não importa o quanto possa parecer finita, a resposta será deslocada por perguntas latentes que vêm embutidas dentro dela. Portanto vivemos dentro do fluxo de uma pergunta sem fim, levando, portanto, a um questionamento infinito. Então voltando ao nosso filme usando o questionamento edipiano. Vamos começar com o cirurgião. Por vingança ele sequestra o jovem que mal encostou-se à sua filha e por isso a levou a um novo surto psicótico que terminou em suicídio. O ódio o leva a reconstruir a filha e ao mesmo tempo a mulher perdida no fogo da traição com o irmão. Além da onipotência desta conduta existe no nível intrassubjetivo uma mistura entre a filha à mulher e a mãe. Com a construção da nova mulher ele literalmente possui as três mulheres numa só. Porque essa necessidade que tem uma lógica baseada no ódio?


Dr. Herberto Edson Maia

Psiquiatra e Professor da UFCSPA

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